kuratiinjapan-remix

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Ainda sobre a crise...

Eu sei que é um saco ficar tocando nesse assunto crise.Todo mundo está de saco cheio de ouvir ,falar e sentir a crise.Mas achei uma coluna bem interessante da colunista Marly Higashi do site da NHK Brasil que aborda um pouco a estória daquele dekassegui que morava debaixo de uma ponte em hamamatsu, e sobrevive catando material para reciclagem.É um texto grande ,mas deveras interessante,e que resolvi postar aqui ,porque a maioria dos dekasseguis brasileiros no Japão,não acessa o site da NHK....

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NHK
@@@Pela profissionalização do catador de rua@@@


O sansei Sidival Furuzawa Pereira, 36 anos, é um catador de sucata. Montado em sua bicicleta, ele faz longas caminhadas todos os dias pela cidade de Hamamatsu atrás de latinhas de alumínio, ferro e cobre. Com as mãos ágeis, ele faz coleta inclusive de madrugada.
Vivia até pouco tempo debaixo da ponte Hogawa, onde acumulou uma montanha de material reaproveitável, causando reclamações entre a vizinhança. Graças ao seikatsu hogo (ajuda à subsistência), concedido pela Prefeitura de Hamamatsu, ele conseguiu uma moradia.
Atrás dessa figura de cabelos duros pela sujeira, pele queimada pelo sol, rugas precoces e do suor acumulado pela falta de banho, descortina-se uma grande personalidade. É desse lixo desprezado que ele sustenta a família no Brasil.
Há seis meses foi parar debaixo da ponte depois de ficar desempregado. Sem falar japonês e sem carteira de motorista, ficou difícil conseguir uma recolocação no mercado de trabalho.
No mês de novembro, o ex-morador de rua obteve uma renda de ¥
50 mil com a venda dos produtos recolhidos. Mandou ¥37 mil para a esposa que reside em São Paulo poder pagar a prestação de um terreno, a ser quitado em 15 anos. “Como lixo e bebo restos de latinhas, mas meus filhos não passam fome”, admite sem constrangimento. Mantém consigo os comprovantes de remessa bancária.
É um exemplo de dignidade para muitos pais que abandonaram seus filhos. “Prefiro catar lixo a me tornar um pedinte ou ladrão. Sou um trabalhador honesto”, assume-se no seu senso de justiça exacerbado.
Seus cálculos se embasam em ¥ 1 ou em valores ínfimos, mas não o ofendam chamando sua coleta de “tranqueira”, pois para ele vale muito dinheiro.
Ele presta um grande serviço ao planeta, reaproveitando inclusive materiais não-renováveis. Sidival é habilidoso. Conserta bicicletas e desmonta eletrodomésticos para obter o ferro e cobre que lhe dão mais dinheiro. Tem receio, porém, de catá-los para não ser confundido com um ladrão. Por precaução, guarda todos os recibos dos produtos comercializados.
Não esconde sua revolta contra a incompreensão em relação ao seu trabalho principalmente por parte da polícia que o pára e o fotografa com certa constância.
Sim, ele conseguiu uma moradia. Mas o que ele precisa mesmo é manter seu trabalho para garantir o sustento da família. Ao sair debaixo da ponte, onde ele próprio admitia que vivia como um bicho, perdeu o local onde depositava seus materiais recicláveis. Não tem mais onde separá-los.
O aluguel de um terreno, onde planejava colocar uma velha caçamba de caminhão para poder guardar o lixo, se mostrou inviável. A locação mensal gira em torno de ¥40 mil a 50 mil, difícil de ser coberta, por culpa da crise econômica que rebaixou ainda mais os preços do ferro e cobre.
Essa turbulência financeira mundial acabou por tornar os desvalidos ainda mais miseráveis. Sidival, porém, não desistiu de correr atrás do aluguel de um container no valor de ¥ 7 a 12 mil/mensal. Pensa em até formar sociedade com algum brasileiro desempregado que queira locar um terreno em parceria.
No começo, antes da pororoca econômica chegar, obtinha ¥120 mil mensais, por conta de seu empenho, redobrado até de madrugada. Seu trabalho não se limita à coleta. Precisa de luz para clarear a retirada do ferro e cobre dos liquidificadores, aspiradores, ventiladores, ares condicionados e panelas de gohan.
Ele prefere desmontar cada eletrodoméstico a vendê-lo inteiro ao ferro-velho que desembolsa apenas ¥3 por unidade (não fragmentada). É um serviço que consome todo o seu tempo. Para se ter uma idéia, Sidival abre latinha por latinha para não entregá-las com toco de cigarro ou algum material inconveniente que faça o preço despencar ainda mais ou até cortar sua comercialização.
Se não fosse a exploração dos atravessadores, ele e outros homeless que sobrevivem desta atividade poderiam vender direto seus produtos às fábricas de reciclagem com preços mais rentáveis. Algumas empresas não negociam com pequenos, já que o volume a ser transacionado é muito baixo.
No Japão, porém, o ganho do nikkei é maior. Sidival já foi catador de rua no Brasil, onde o lixo é mais pobre e não-reciclado, pois o material orgânico se mistura com outros descartes. Lá os recicladores de rua se machucam, pois volta e meia seus carrinhos ou bicicletas superlotadas se envolvem em acidentes de trânsito. Muitas vezes, eles têm as mãos feridas ao tocar sem luvas de proteção em objetos cortantes.
No Brasil, porém, a catação é reconhecida como um trabalho pelo governo e os operários de rua são protegidos pela lei laboral. Se ficarem doentes, podem requerer licença remunerada.
Calcado na experiência do solo pátrio, o nikkei defende a formação de cooperativas de catadores de lixo, com o apoio das prefeituras como ocorre em várias cidades brasileiras. “A Prefeitura daqui poderia locar alguns espaços ociosos, onde os catadores levariam a coleta e fariam a reciclagem. O local deveria ser dotado de banheiro público, luz elétrica e da infra-estrutura mínima para garantir condições dignas de trabalho”, sugere. “Assim teríamos as pessoas certas para vender”, completa.
Isso evitaria que os trabalhadores de rua tivessem que pedalar para tão longe ou fazer a separação do lixo nos jardins públicos. Geralmente eles procuram montar seus barracos perto dos depósitos compradores.
Muitas cidades brasileiras reconhecem essas cooperativas e emitem carteirinhas, que credenciam os catadores a entrar nos estabelecimentos comerciais, condomínios, prédios públicos e particulares para fazer a reciclagem.
A licença dá confiabilidade e respeito aos trabalhadores. Algumas prefeituras ou empresas terceirizadas, encarregadas da coleta pública, liberam ocasionalmente os caminhões caçamba para recolher os materiais que os moradores deixam na calcada na data determinada. O lixo reciclável é levado ao depósito e dividido entre os associados.
O Japão tem um dos lixos mais ricos do mundo. Ele já é separado, o que facilita a coleta. Sidival lamenta não poder ter a carteira de motorista. Gostaria de ter uma caminhonete para coletar mais volumes. Assim poderia recolher tudo como no Brasil, inclusive papelão.
Se houvesse um espaço adequado para a reciclagem, provavelmente muitos catadores hoje marginalizados poderiam desenvolver um trabalho de forma mais saudável.
A crise econômica vai levar muitos desempregados a essa subsistência. Hoje se estima que existam 30 mil homeless no Japão. Por que não tirá-los da marginalidade, dando-lhes condições dignas de trabalho, com o devido reconhecimento social? O lixo que está na rua dá dinheiro.
Além de desenvolver uma política de inserção dos excluídos sociais, frente ao aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, o país poderia reduzir o desperdício e economizar com os aterros sanitários.
Em tempo: Depois de ter escrito a parte inicial desta crônica e ao tentar vender meus apetrechos nas lojas de usados no final do ano, fiquei perplexa, pois eles nada valiam. Os estabelecimentos nem queriam de graça.
Refleti então se a idéia de Sidival era viável e se os moradores de rua não deveriam ser alvos de uma política de inclusão mais justa e eficiente. Muitos nem chegam a obter ¥100 por dia.
Certamente remexer em lixeira não é uma opção. É uma saída para quem não tem oportunidades, já que não existe um programa de inclusão social. Em um país sem recursos naturais, o governo deveria investir prioritariamente no treinamento profissional dos seus cidadãos, inclusive estrangeiros. Mas se a opção de trabalho é pela reciclagem, por que os órgãos públicos não criam uma estrutura para apoiar os nanicos, dando-lhes a estrutura necessária, evitando a exploração? Muitos acabam acumulando o lixo, com protestos dos vizinhos, por que não dão conta de fazer a desmontagem do ferro-velho ao ritmo da coleta.
De olho nesta riqueza, empresários de outros países têm instalado suas empresas aqui. A experiência do Brasil, onde o número de marginalizados é muito maior, pode não se aplicar ao Japão, mas ajuda a repensar em uma política pública.

3 Comments:

  • Olá Kurati,

    Seu Blog é muito bem escrito - equilibrado,sensato e escrito sem ódio como de outros "dekassegui" -, Parabéns!

    Acompanho diariamente e assim fico informado sobre os "usos e costume" do Japão.

    Lendo essa reportagem da BBC ficou uma dúvida que talvez você possa esclarecer: os "dekassegui" não tem a preocupação de poupar uma parcela de seu salário????.

    Afinal, se estão aí é por uma oportunidade financeira de que a "terrinha do pinguço" não nos dá e o foco não seria poupar???

    Parabéns pelo Blog e continue a oferecer essa oportunidade de saber sobre o Japão.

    By Anonymous Anônimo, at 10:54 PM  

  • Sr.Anônimo,agradeço aos elogios,mas peço que deixe nome e e-mail,pois assim poderei responder diretamente.
    A grande maioria dos dekasseguis chega aqui com esse objetivo de poupar e voltar logo pro Brasil(me inclua nesse meio),mas com o passar do tempo descobrem que a vida aqui é muito cômoda e a aquisição de bens materiais inimagináveis no brasil é bem fácil,por isso vão ficando,ficando e gastando, gastando ,como se fosse nativos ,sendo que muitos mal arranham o idioma,e nem se preucupam com isso já que achavam que a moleza seria eterna.Daí ficam desprevenidos ,sem dinheiro até pra voltar quando aparece uma crise como essa.

    By Blogger kurati, at 11:11 PM  

  • menino,tu nao vi acreditar,eu assisti pela tv quando passou a reportagem sobre o sidival,comentei com varios colegas a respeito pq fiquei muito sensibilizada com a vida que ele levava,mais muitos diziam q ele nao trabalha pq nao queria e tals,incrivel como aqui os brasileiros se tornam tao duros com os outros brasileiros,é feito o anonimo acima falou,a maioria que estao aqui so sabem criticar os proprios conterraneos,como se fosse melhor,como se nao fosse brasileiro,ta certo que tem muitos que sao folgados,aproveitadores,mais isso independe do pais de que vem...e para finalizar,por mais que se achem melhor,sempreeee serao estrangeiros nessa terra.
    um abracao e eu tambem acho que vc escreve super bem.

    By Blogger andreia inoue, at 9:20 PM  

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